Translate

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

O FUTEBOL COMO MERCADORIA

Atualmente, a bola no pé já não é apenas uma forma humana de se expressar, transcender, comunicar, cooperar (talvez esse termo nunca foi alcançado plenamente). É acima de tudo, a maior mercadoria do século XXI quando observamos a forma profissional de se fazer o futebol. 

O  Futebol, inserido no modos de produzir a existência capitalista, vem se transformando cada vez mais em um produto de venda e compra, uma mercadoria cada vez mais valiosa para aqueles que detêm os meios de produzi-lo, principalmente os donos de suas transmissões. O trabalhador, jogador entre outros, quando mais barato e produtivo, melhor! 

Certa vez, um tal Karl Marx olhando criticamente para as relações mercantis de sua época (século 19), verificou que as mercadorias apresentavam duas formas de expressar-se e existir, sendo elas: Aparência e Essência.  A aparência das mercadorias seria, resumidamente, o valor de uso e troca que elas obteriam no mercado. A essência revelaria as relações sociais historicamente constituídas no mercado que faziam que todas as mercadorias se igualavam no mesmo, revelando com isso processos complexos como a exploração do trabalho, mais valia, forças produtivas, alienação, entre outras facetas do modo produtivo capitalista. O futebol no período em que a reflexão marxista era fundada tinha mais um caráter cultural do que mercadológico, mesmo com o esporte chamado "moderno" em ascensão por todo o mundo.

De lá para cá, observamos que o futebol praticado atualmente apresenta-se como um produto a ser comercializado, portando, produzido com fins de venda e compra. Fica a saudade do futebol como prática do ser mais. Fixa-se o futebol como prática do ter mais. O trabalhador que fixa as traves, aquele que coloca a grama, os encanadores dos vestiários já perderam faz tempo de vista o produto futebolístico por eles elaborado. A alienação faz a sua parte. Afinal quem produz o futebol espetáculo?

Aparentemente, esse produto está no mercado para que as pessoas vivenciem momentos especiais como uma final inesquecível entre FLA X FLU ou uma derrota aterrorizante por 7x1 em casa na semi final do maior torneio da modalidade. Se ficasse só na aparência, o futebol seria uma mercadoria capenga, pois precisa de sua essência, aquilo que profundamente a faz existir. Se ficasse na aparência os atletas jogariam por amor a camisa. Porém, estamos falando do futebol profissional, logo, uma mercadoria que possuí uma essência.  

Essencialmente, o mercado recebe o futebol para que as pessoas o consumam cada vez mais e mais caro possível, pois, quanto maior o lucro, melhor. Os clubes apresentam-se como verdadeiras empresas, embora, isso fica invisível aos olhares da maioria da população. O Brasil nessa teia comercial vai se transformando em exportador de jovens atletas para mercados mais preparados, nos quais jogadores são revendidos por preços muito maiores daqueles investidos aqui. Vário são os exemplos de atletas que vão para clubes de menores expressão na Europa para que depois sejam vendidos para a elite futebolística.

No capitalismo, se uma empresa quer vencer no mercado é preciso passar por cima das demais e, no futebol, o espaço é o mais propicio para isso. Lá a competição é de alto nível, alto rendimento, alta competitividade. O trabalhador perde de vista o seu próprio trabalho (fabricar uma chuteira por exemplo) e o produto final realizado a partir dele (futebol).

Infelizmente, no país em que o futebol é a mercadoria mais "praticada" (comprada de fato) as pessoas se transformam em consumidores eternos, pois a paixão pelo clube (empresa) é maior que tudo, como alguns dizem, "eu morro por ti Corinthians". Nesse consumo, cresce o número de consumidores de sofá e decresce aqueles das arquibancadas. Afinal, o mercado tem faturado mais assim, pois diga-se de passagem, o número de transmissões "fechadas" aumenta a cada dia junto com o acesso virtual por meio da internet. 

O futebol praticado na chamada várzea está morrendo bruscamente, pois os espaços (várzeas) nos grandes centros quase não existem mais. Há uma lógica nisso: a mercadoria produzida pelas pessoas devem ser por elas pouco consumidas. Os meios de produzi-las cada vez mais ficam nas mãos de alguns em detrimento de muitos. A "várzea" que existe atualmente tem que ser paga. Os "donos" dos espaços decidem quantos reais custam uma hora do "pelego" rolando. Se você quer, pague! Se não quer praticá-lo, ligue a televisão e pague! Se não quer praticá-lo no campo de fato e nem assisti-lo, compre um jogo virtual e desfrute-o.

No país em que a Copa do Mundo é realizada, o preço para consumir o futebol exclui aqueles que podem daqueles que não podem. O crescente número de consumidores nas poltronas do sofá tem mostrado como esse produto ficou caro. Quanto estamos dispostos a pagar por ele?